(Foto: Sebastião Salgado)Entrepostos mantêm-se abastecidos pelo produto dos sequestros fratricidas praticados entre tribos rivais e pela ação de mercenários e negreiros em regiões descontínuas da “Costa dos Escravos”, Golfo de Benin: angolas, hutus e outros homens e mulheres escravizados vindos de todas as partes do território que irão - a pauladas e já com monogramas marcados a ferro quente - abarrotar os navios negreiros em meio a febres e diarréias. Carga viva (peças de mercado: uma de quinze anos, ou duas de sete, em média), assustada e seminu, que não ultrapassará, muito provavelmente, os dez anos de vida útil nos canaviais brasileiros. Na praia - em Wuidá, antes do embarque – têm que dar voltas rituais e estratégicas em torno da “árvore do esquecimento”, quando, supunha-se, perderiam sua memória, esquecendo seu passado, suas origens, sua identidade cultural, como imunidade ao banzo que matava na viagem e para se tornarem seres sem nenhuma capacidade de reação e rebeldia, para uma travessia caracterizada por maus tratos, espancamentos preventivos e má alimentação. Traficando ao Brasil, os negreiros trazem homens coisificados e desumanizados, “servus non habent personam”: sujeitos sem alma, antepassados, nome ou bens próprios. Insanamente, por meses, homens da tripulação navegam no fio da navalha, lidando a seu ver com animais, seres inferiores, mas, de fato, com um carregamento multiétnico de corpos e espíritos livres e diversidade cultural explosiva. O caldo cultural adequado para práticas que viriam a se configurar, já no Brasil, como - dentre outras tantas em gestação - o jogo da capoeira e o samba…

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